14 de dezembro de 2007

HISTÓRIAS MARGINAIS



[Marginal é quem escreve à margem,]
Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.
Marginal,
escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha.
As Histórias que seguem, estão nas entrelinhas do Grajaú.
De um círculo de amigos,
de um círculos de agentes marginais,
de um círculo de histórias
que reuniu nove jovens que atuam no
Projeto iMargem,
este por sua vez,
que se inscreveu e e se escreve nas margens da represa Billings.
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Quem constrói o barraco este mês:
Mauro Néri – HISTÓRIA DE UM AGENTE MARGINAL,
Marcus Angioletto - HISTÓRIAS DE VIDA E DE (SOBRE)VIVIDAS,
Obranco – RÁPIDA SINOPSE DE MIM,
Ronaldo – O CAPENGA,
Everaldo, HISTÓRIA OCULTA
Audaz – A BALSA, O BAR E A ILHA DO BORORÉU,
Jonato – MORRO DA MACUMBA,
Tim – VENDE-SE
Jerry Batista – GRAJAÚ-PARATI.

VENDE-SE por Tim


Essa história ela começa nas margens da represa Billings,
Estava eu um dia, com meu livrinho,
Lendo às margens da represa quando eu falei comigo mesmo
:
- Vou pintar em outro lugar! Preciso pinta - Aquele livro me inspirava muito.
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Então eu e minha bicicletinha
Saímos daquele local de margem, com direção à outra margem. Cheguei na represa Guarapiranga,
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Chegando ali próximo dessa represa existe uma fábrica abandonada que e há muito tempo, e eu não percebi isso de agora, existe um movimento muito grande de, existem umas prostitutas, alguns travestis que fazem o comercio do seu corpo ali naquele local.
.
Então eu curioso com tudo isso, com essa pessoa, aquelas pessoas estranhas diferentes, eu vou lá curiá o que tá acontecendo. Até eu chega próximo, fui percebendo que aquele dia estava mais tranqüilo, tinha menos pessoas ali...
.
Então eu olhei pra um terreno ali na frente e vi que aquele terreno me chamava a atenção por algum motivo
.
Era... sujo, era feio..., ele era... isolado.
.
Então isso me chamou atenção a entrar e conhecer esse espaço.
.
Assim que eu piso nesse espaço, eu percebi que ele... funcionava como um... era um terreno que fica em frente a essa fábrica e ele funcionava como uma espécie de motelzinho dessa galera ai e o chão era forrado de camisinhas e outras coisas estranhas que eu não prestei muita atenção, mas camisinha tinha muitas. E algumas camas meio que forradas também. Encantado com aquele lugar.
.
- Nossa. Que pico louco. Meu deus do céu.
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Eu com meu materialzinho disse - vou pintar aqui
.
Ai, comecei a pintar, fui bem pro fundo do terreno, no lugar mais feio que tinha e comecei a pintar... Então fiquei ali por alguns trinta minutos
.
Quando de repente, entra uma das pessoas que ocupava aquele espaço, com seu companheiro, um taxista. Eles entraram na sala. Era um traveco bem grandão, bem forte e ai, logo que ele me viu naquele espaço:
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- Ah! Eles tão pintando a minha sala! E tá ficando bonito, a que lindo!
.
E eu fiquei assustado com tudo aquilo o cara era grande, alias eram dois caras e eu fiquei calado meu
.
O que que eu faço? Continuo a pintar?
.
Ai ele já veio na minha direção e todo encantado: Nossa tá pintando! Ele tava chegando mais próximo de mim e o cara que tava atrás dele, o taxista virou de costas e já saiu voado quando me viu e ela num percebeu isso tudo.
.
Ele veio na minha direção, fazendo esse comentários e esqueceu que o rapazinho que tava acompanhando ele, tinha virado as costas assim que ele levantou a cabeça e me viu, deu meia volta, automático
.
Quando ela percebeu que ele tinha ido embora mudou o discurso dela de encantamento e começou a ficar meio nervosa:
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- Pô meu você estragou meu programa, cara, é tão difícil encontrar uma pessoa aqui
.
Aí pô, ela ficou fudida comigo, e eu morrendo de medo, mas ai depois ela chegou numa boa e falou “foda, né, perdeu o cliente é foda” mas ele ficou batendo um papo e eu pedindo desculpa pra ela e ai fui conversando com ela sobre aquilo, num mini papo rápido até ela decidir que tinha que trabalhar
...
E assim que ela saiu dali a polícia encostou e já levou ela, enquadrou e eu fiquei naquele mesmo momento caladinho.
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Enfim,
.
Sai de lá e fui pra margem da represa refletir e pensar sobre toda aquela situação e decidi que precisava contar, tava muito com vontade de contar aquela história pra diversas pessoas. Porque achava aquela história muito louca. Falei pô tenho que registrar aquilo. Eu tô sozinho nesse momento aqui eu vou pintar né. Passar para o máximo de pessoas, através do grafite que é o que eu faço
...
Então fui ali próximo em uma região que tem muitas casas bonitas, as pessoas que tem uma grana... e era um momento que eu tava desempregado, é verdade, eu num falei isso, eu tava desempregado naquele momento ali, por isso que eu tava ali pintando, eu ultimamente tava fazendo muito isso, era as margens, era pintar, passear e ver pessoas e falar com elas todas – tava numa fase de descobrimento – então eu fui quere compartilhar aquilo, mas com o pensamento também de pô, preciso descolar uma grana, não com a expectativa de que eu ia conseguir uma grana naquele momento, de desabafar todo aquele momento que eu vivia na minha vida.
.
Escolhi uma casa, a casa mais bonita que tinha em Interlagos, nem sei nome daquele bairro, mas ali próximo a Robert Kennedy, um bairro onde tem muitos casarões e escolhi um muro que tinha várias placas de vende-se e vende muito terreno naquele lugar, terrenos grandes, terrenos pra quem tem dinheiro
.
Eu lembrei que naquele momento a coisa que eu carregava mais forte ali, era a arte, era poder pintar, fazer grafite e se eu conseguisse dinheiro com isso, maravilha né. Assim como aquele garoto, aquela garota, que tava comigo naquela salinha ali, ele tinha o corpo dele pra poder vender, vender é uma frase bem estranha, mas de alguma forma conseguindo grana, sobreviver, era o que dava o sustento dele. Lembrei daquilo de vender o corpo era estranho e vender a arte também era estranho e essa confusão de pensamentos
...
E o livro que eu tava lendo...
chamado O Processo do Franz Kafka e ao mesmo tempo tinha lido outro que era Metamorfose e tinha algumas cenas daquele livro que era muito bizarra, era uma coisa de transformar, era meio doido, assim como era doido também, a situação e ai eu fiz uma mistura daquilo tudo que eu tava passando
...
* Wellington Neri, conhecido como Tim, tem 23 anos.

13 de dezembro de 2007

A BALSA, O BAR e A ILHA DO BORORÉU por Audaz


A história que eu vou contar é de um cara quee...
Um amigo meu,
O Mauro trouxe pra pintar aqui na região um cara chamado Paulito
e convidou mais dois amigos dele (que eu não tinha muita amizade) chamado
Jerry e o irmão do Mauro Tim...
.
E nóis fumo fazer umas pintura lá na represa
Na nossa região
.
A nossa região era bem distante, afastada um pouco da área urbana
A região tipo de mato mesmo
nesse rolê que a gente foi fazer essas pintura
.
Nóis acabamos por pará em um barzinho
Já era tarde já
.
Questão de umas três horas da tarde
Nesse barzinho,
estava de carro,
um golzinho, aqueles golzinho quadrado.
Com isso nóis paramos num bar e começamo a trocar uma idéia,
beber umas cervejas e com isso nóis fumo trocando idéia.
.
Nesse caminho pra esse lugar de mato
Tem uma área que é uma represa
Tinha que atravessar uma balsa
E nessa questão da balsa
Tinha os quiosque perto dela
.
Antes disso, como eu tinha falado... desse bar, esses bar são esses quiosque...
Ficamo lá bebendo,
Aiii bebemos nesse bar,
Ficamo tirando um lazer e foi nóis pego e fumo atravessar essa balsa
Essa balsa ela tem uma fila enorme pra atravessar
E já era já uma 4 hora já
Que nóis fico no bar
.
E tava um tempo bem chuvoso assim
E nóis pego e atravessamo nessa balsa pro outro lado
.
Chegando do outro lado, o Mauro
e o Jerry
Explicaram que tinha uma igreja
aí nesse lugar... nessa ilha... nesse lugar chamado ILHA DO BORORÉU
Tem a igreja lá que era centenária
E nóis explicando pro rapaiz que nóis convidô
Pro Paulito
.
E nisso... perto dela tinha um bar
E nisso... nóis começamos também a troca idéia,
conversar
Mas já era bem tarde e nesse dia a gente ia pintar...
.
Com isso a gente pegô e
perdeu o tempo... já era uma seis hora...
E começou a chover,
Chuver mesmo, chuva forte mesmo
.
Foi aí que nóis tivemo a idéia de nóis pintar
Num lugar perto de lá, no lugar que tinha um trampo de um amigo da gente
.
Com isso a gente começou a pintar,
a chuva muito forte e nóis com umas capa pra pintar na chuva...........>...>..........

* A Ilha de Bororé fica no distrito do Grajaú, é uma península no meio da represa Billings. A região faz parte da área de proteção ambiental/APA (reserva Bororé-Colônia) e tem população estimada de 3 mil habitantes.

O CAPENGA por Ronaldo Silva


Meu coração sabia que ele podia ter o mundo e
ser tudo,
mas ele era mudo em meio às feras fumacentas
.
Naquele seu escudo eu via tudo,
mas era mudo.
.
Minhas mãos calejadas onde cabia o mundo,
tremiam em meio a tudo
Julgo que sentia medo,
mas levantava cedo pra enfrentar as feras fumacentas das centúrias
.
Tudo que eu sabia é que um dia eu ia e
Meu sorriso pálido calado medo
Cálido segredo meu escudo invalido
Um frêmito ludibrio
um frêmito ludibrio frente asa feras fumacentas
Tensas, sanguinolentas, cinzas de pavor
no meu tumor latente
.
E eu indigente de luz
Feito raiz numa escuridão tão fria
Cheio de um amargo pus
Cria de um amar depois
Louco pra poder voar, voar,
Se dera os céus pudera
Penso que não cabe amar de forma homera
E já era triste esperar
.
Sempre quase por um triz meu ludo
Tudo que talvez contesse um deus
Ó meu deus, no lodo do esquecimento
Dentro de um neurônio morto
Alheio as esferas fumacentas
E a mim
.
Matizes de um dejavou
Nuances de um amar depois
Me sentindo drogado eu ia
Assim meio dia nublado
No improviso decorado
Meio dublado e meio legenda
Afim de não ser mero e ainda espero descobrir o que
.
Não quero apenas repetir as horas
Sentir apodrecer os meus dentes
E fora isso nada
.
Ouvi dizer que o mundo era uma coisa boa
Mas penso que as eras passar-se-ão
Alheia ao vão das coisas daqui
Alheias a mim e a ti
Alheias até às feras fumacentas
.
Eu vi pessoas lindas
Loucas e roucas de amor
Com todos seus dentes na boca
.
Penso que não há respeito nas propagandas em outdoor
Me sentindo doente eu ia
Rangendo os meus dentes
Nau sem vela ou leme
Um samurai sem honra ou pente
Me sentindo drogado eu ia
.
E por não saber me outro
.
Eu ia
.
Ronaldo Silva
.
O capenga

10 de dezembro de 2007

SINOPSE RÁPIDA DE MIM por Obranco


Meu nome é Rodrigo de Souza Caldas, vulgo Obranco, tenho 21 anos, sou universitário, faço faculdade de Artes Visuais, to no segundo ano, quarto semestre, também sou ilustrador, trabalho com serigrafia, grafitagem, decoração, também sou arte-educador, ou melhor, to aprendendo a ser arte-educador, dou aulas numa instituição chamada Santa Dorotheia e é isso
.
Essa é uma sinopse rápida de mim
.
O que eu tenho a falar de novo é sobre essa questão das margens da represa, dessa influência forte que ela tem na minha vida, mas acredito que não só na minha vida, como todas essas pessoas que participam desse projeto chamado Imargem, que tem esse elo forte com as águas, que é um elo muito criativo, é um elo, enfim, algo muito construtivo a meu ver e esse elo meio que ta em processo, eu to construindo esse elo, eu tô construindo essa história, eu to construindo essas vivencias com as águas, assim com as margens. Eu moro, resido no Grajaú há 21 anos e há 21 anos eu meio que to desenvolvendo um certo amor assim pela questão das água que
...
Tenho muitas histórias pra contar, mas acredito que eu só vá dar ênfase em uma que até então é a mais importante pra mim, que é essa idéia de sabe, num final de semana você sentar e procurar sentir um pouco a natureza, extrair da natureza coisas e questões pra você utilizar o seu trabalho, pra você utilizar na sua vida
.
Fotolog do Obranco: http://www.fotolog.com/ofluxo

GRAJAÚ-PARATI por Jerry Batista


Olá, eu sou o Jerry Batista, trabalho com arte pública do Grajaú, do centro de São Paulo e de toda São Paulo desde o final de 1996, mas o correto em 1o. de dezembro de 96.
.
Trabalho com grafite na região, trago a história do grafite pra cá, né um lugar, que é difícil o acesso de cultura, mas a gente tinha como um objetivo, não só eu um amigo meu chamado NIGGAZ também que faleceu, mas que é co-ator dessa história toda da cultura da região do Grajaú...
.
...mas eu vou contar uma história não dele, mas um pequeno trecho dessa história toda, desse longo do tempo...
.
Foi assim, teve um dia que conhecemos o ETAS lá na vida Madalena, um dos poetas que vive de poesia, mangueiam suas poesias (escrevem suas poesias, tiram xerox e vendem para as pessoas de bar em bar, dizendo, chegando às pessoas e perguntando se elas gostam de cultura e ai vende seus panfletos) e nisso conhecemos essa galera, achamos muito interessante, tinha tudo a ver com a arte da rua, a diferença que a gente não cobrava
,
mas a gente perguntava isso, se as pessoas gostavam de cultura
e
ai um belo dia com essa galera lá, o BERIMBA, PEDRO TOSTES, RENATO LIMÃO, FERNANDA né e junto com MAURO, o TIM, e eu resolvemos ir para a feira de Parati, pra vender poesia lá, já que é uma feira internacional, onde vai vários poetas, vários autores e é um bom lugar para se manguear como diziam os poetas
e
então resolvemos ir com essas pessoas pra lá, eu e o MAURO pra ver se a gente vendia nossos trabalhos, a gente pintaria algumas lonas, algumas coisas que daria pra enrolar, pagaria a diária em umas barracas e ficaria lá com as pessoas mangueando e nisso foi o irmão do Mauro também, o TIM que alem de pintar ele estava de férias, ele de férias e nois dois, eu e o Mauro pra trabalhar
...
Como a gente vai manguear
?
A gente é muito acostumado com grafite, todo lugar chegar e pintar, só que aquela cidade era uma cidade histórica onde as paredes não poderiam ser mudadas e tem um valor cultural de respeitar as outras obras de arte, os outros artistas
.
Então como a gente vai fazer isso
¿
Ai chegamos no meio da cidade nunca tinha ido lá, mas os poetas já conheciam e sentimos meio que a vontade
,
achamos uma madeira ali,
uma outra aqui,
uma corda,
um pedaço de varal e
emendamos e
esticamos umas telas bem grandes,
desenvolvemos elas numa madeira,
como se fosse uma cruz,
uma estaca, penduramos e
saímos pra cidade
,
o que é legal, que acho que eu nunca tinha ouvido é essa intervenção de grafite pela cidade, então saímos, com elas amarradas, penduradas, pela noite de Parati, com os poetas vendendo as poesias e aquilo engraçado que parecia uma procissão, um ato religioso onde as pessoas andam, mas na verdade a gente tava indo pra\falar da arte e tentar vender que esse era o objetivo que a gente não tinha muito $
...
Ai fomos para a cidade paramos a noite e bem legal que nós esticamos o pano respeitando os muros, então paramos em frente a uma casa e começamos a pintar um pano e as pessoas gostavam bastante e até que começou a rolar uma atenção bacana, as pessoas perguntavam qual era o preço das obras, só que eles não tavam acostumados e infelizmente a gente só ia ficar ali naquela noite
...
era uma estratégia meio suicida né, porque como você vai divulgar um trabalho e já querer vender na mesma noite, mas foi bem divertido assim, ver varias pessoas, conversar e nisso, enquanto eu e o Mauro tava tentando trabalhar, vender os trabalhos, tava o Tim de férias, bebendo os vinhos, umas bebidas e ele olhando a gente, a gente olhando ele, ele encostado numa porta, curtindo tudo que tava acontecendo se divertindo
...
E o que foi legal que no final da noite não conseguimos vender nada, mas os poetas venderam e a gente tinha um pouco de dinheiro e eles venderam a poesia, então vamo beber, vamo comemorar isso, vamo festejar, então festejamo a noite, em parati e bastante, e no final vamo parar na praia, assim na areia da praia, mas e ai no final disse se demo conta que a gente não tinha lugar pra dormir, tava lá nossos trabalhos, nossos panos grandes e não tinha lugar pra dornir, entao cada um deitou na areia da praia e falou vamos dormir aqui mesmo, tinha uma fogueirinha e quando essa fogueira se apagou o que foi bonito foi que o nossos trabalhos que a gente levou pra vender, que não conseguimos vender, que eram panos enrolado acabou servindo de cobertor, então o que aconteceu na parte da manha acordamos com as nossas obras encima da gente servindo como cobertor, então foi a primeira vez que eu vi que a arte que a gente faz tem alguma importância, significativa, não só pelo valor da estética, da pintura ou pelo que ela quer dizer, mas o valor realmente humano que a nossa obra serviu para que nos encobrisse do frio
.
Uma noite de mangue em parati bem diferente.. com os poetas.. poetas vivos, que vivem das suas poesias, que não tão contando histórias mas tão fazendo história e isso foi bem bacana um dia bem marcante da minha vida que eu, seilá enquanto eu tiver vivo eu não irei esquecer´e é isso ai a história toda vai indo e no final volta pro começo que é o Grajaú que era onde encontra essa galera toda da arte, não só do grafite, mas da escultura, mas da parte musical, que tamos ai não contando história, mas fazendo história.

4 de dezembro de 2007

CONTOS DE VIDA E DE (SOBRE) VIVIDAS por Marcus Angioletto

Eu quero que a trilha sonora seja joydivision, só não sei o nome da musica mas eu sei que tem muito a ver comigo, eu acho, ee eu vou ler um pouco assim eu vou falar um pouco, seilá que se fodam as coisas do mundo, inclusive eu também.

Contos de vida
Contos das nossas sobrevividas
Onde poucos sobreviveram
Onde o filho chora e a mãe não vê
Onde filhas pedem, perdão, quando estão
na extrema solidão
nas noites do Grajaú, vivi noites das mais tristes
perdidas vidas
mesmo assim, não desisti
vivo de desgosto e abortos
de fases de pura depressão
vi, vivendo, desde 1999, uma salvação
a arte
interrogação (risos)
que se divide em várias partes
grafite, skate, cultura ee daí vai, musica e blablabla e blablabla
e todos os tipos de cultura

eu acho que de hoje em diante tem uma experiência fascinante pois tenho a possibilidade de conversar com todos os tipos de pessoas, de raça, de varias, de crenças, de tudo eu acho
Eu acho que são as variedades de pessoas que, de atitudes, de experiências, que mudam a nossa cabeça
E eu digo não adianta vice fazer sete anos de faculdade e dentro de uma sala com certos alunos, sendo que você não passou sequer, eu acho que, mais ou menos eu acho que uns 10 anos ah vai ei to brincando, mais ou menos um ano conversando com pessoas da rua, de diferentes, de diferentes, de diferentes trabalhos eu acho,
desdo marreteiro,
desdo drogado,
do viciado,
desdo traficante,
desdo ladrão,
desda prostituta,
desdo amigo,
desdo falso,
desdo inimigo,
dês das pessoas que realizam os seus sonhos,
daqueles que não realizam,
das garotas, dos sonhos e de varias brisas
amém
Acho que minha história, minha história, não posso contar muito sobre minha história, porque senão, ficaria acho que, um dia inteiro contando e acabaria chegando num mesmo, acho que no mesmo lugar eu acho que,
depois de ser uma pessoa normal,
uma pessoa anormal,
uma pessoa normal,
uma pessoa sem arte,
uma pessoa normal,
uma pessoa com arte,
que tem muito conhecimento, e eu vivi muito acho que a madrugada andando de skate, acho que isso, influenciou muito a minha arte assim, de muito as luzes, muitas blitz, de muita, de muitas drogas, de muito convívio com pessoas erradas , com pessoas certas, com vários tipos de pessoas, eu acho que, isso é bem comum assim, na região do Grajaú você encontrar milhões de pessoas com varias atitudes, com vários pensamentos, mas eu acho ótimo, conhecer outras pessoas e acho que é isso a vida cara, é conhecer tudo que é bom, tudo que é ruim, e sabe, e sabe, acho que colocar as coisas certas no tempo certo, que nem, que nem hoje, hoje eu to aqui, mas to muito frustrado com varias situações que tão acontecendo comigo, to muito triste e ao mesmo tempo muito feliz de estar aqui com todos meus amigos que eu amo de coração e que me influenciaram muito nessa parte da arte, que me ensinaram muito, mais ou menos eu posso te dizer assim, que tudo que eu sei cara, esse pessoal que vai falar ai na seqüência tem tudo a ver comigo também e é isso, essa é um pouco da minha história, da minha vida, dos meus amores e dos meus inimigos e dos meus amigos e é isso cara, odeio todos, do mesmo jeito que amo todos e acredito muito em deus, acho que isso é a salvação de tudo, obrigado tchau

MORRO DA MACUMBA por Jonato

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Não é à toa que começo a contar essa história pelo meio.
Alias essa palavra meio, sempre me intrigou,
pois desde o começo esteve comigo.
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Demorei tanto tempo para perceber que sempre há um meio por onde as coisas possam acontecer...
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Esta é a historia de um lugar, das pessoas que por ali passam e das que dali nunca vão passar. Este lugar não é exatamente um morro, mas por muito tempo foi chamado de Morro da Macumba.
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Devido a enorme quantidade de despachos que ali eram realizados, quando tudo ainda era um matagal, cortado apenas pela estrada de terra, por onde passava um ônibus, passava, mas muito longe não ia. Aqui era o ponto final, era onde jogavam os corpos mutilados, vitimas de assassinatos brutais, mortes por facada, pauladas e pedradas não eram raras. Assim contam os antigos moradores.
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Lembro que tinha cinco ou seis anos quando eu e minha família aqui chegamos.
Lembro-me de que tudo era cinza, pois do toco das árvores queimadas, ainda brotavam fios de fumaça, devido a queimada para apropriação invasiva das terras, os gravetos estralavam aos nossos pés, enquanto caminhávamos rumo ao terreno que o meu pai comprara, para fugir de mais de 10 anos de aluguel e pagou bem barato pelo lugar.
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Só pra constar parte do pagamento foi uma bicicleta velha. 
Isto porque para estas bandas ninguém queria morar. As margens da represa Billings diziam ser amaldiçoado o tal lugar. Verdade ou não, a necessidade falou mais alto e o terreno na verdade eram dois terrenos. Um ao lado do outro, inclinados, que iam de uma rua até a outra. As ruas foram sendo numeradas, assim a rua de cima ficou sendo a rua 10, enquanto a de baixo a rua 9.
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Construiu-se uma casa, bem no meio.
Dois cômodos, tijolos vermelhos, sem reboco, sem colunas, com telhas, bordas e janelas improvisadas com papelão e pedaços de madeira. A minha família: meu pai e minha mãe e mais quatro filhos. Nesta época eu ainda não era o irmão do meio, pois a caçula ainda não havia nascido. Não muito diferentes eram as famílias vizinhas.
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Foi ali que passei a minha infância, brincando de pega-pega, jogando bolinha de gude, correndo atrás de pipa. A noite, para se tomar banho, era necessário tirar um balde de água do poço e esquentar, pois a energia elétrica que vinha de uma gambiarra, puxada do poste da rua principal, não era o suficiente para fazer funcionar o chuveiro.
... 
Para espantar os pernilongos que eram muitos devido a proximidade da represa, minha mãe fazia fumaça queimando capim seco dentro de uma lata e ficava dando volta nos dois cômodos por fora da casa. Assim eram as coisas, mas muitas coisas mudaram.
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Com o passar do tempo...
mais e mais famílias foram chegando e todas tinha algo em comum.
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Todos eles, fugiam.
Uns fugiam da policia, outro dos bandidos, uns do aluguel, outros do nordeste. Enfim, todos fugiam.
Logo aquele lugar tornou-se um verdadeiro refugio dos desafortunados. Detalhe que eu não posso deixar de passar é o quanto as pessoas maldizem desse lugar, que a cada dia que passa só acolhe mais e mais pessoas.
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Dizem ser longe de tudo, perto do nada... 
Que as pessoas que ali moram, não moram, se escondem...
Um lugar amaldiçoado, antes mesmo de ser lugar...
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Das pessoas com quem nasci, cresci e passei junto a infância muitas se mudaram daqui e nunca mais as vi, outras tantas retornaram como filhos pródigos. Estes são os que blasfemaram na saída, os que foram abraçados pela maldição. A maldição do maldizer. Essa maldição não vem dos despachos de antigamente, mas brota como uma flor negra de quem cultiva o orgulho, a inveja, a ganância, a avareza e toda a sorte de sentimentos ruins
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Essa é a história de um lugar, das pessoas que por ali passam e das que dali não passarão, enquanto não perceberem ser elas também o meio de fazer alguma coisa por este lugar.
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Meu nome é Jonatas Rodrigues do Santos, moro na travessa rua Uirapuru, antiga rua 10, no Parque Residencial Cocaia , antigo Morro da Macumba.

28 de novembro de 2007

HISTÓRIA DE UM AGENTE MARGINAL por Mauro Neri



Essa é a história do agente marginal que é como a história de alguns poucos sobreviventes da nossa mesmice endurecida.

Filho de migrados baianos nasci nos anos 80 num bairro extremo sul da capital paulistana. Com poucos anos em companhia dos irmãos e o Rex sem coleira, brincavam de “Aventura”, munidos de muita imaginação desbravávamos os novos bairros, a vegetação e por fim a margem da represa verde, em busca de jogos, paisagens e sonhos reais, brincando com pedacinhos de natureza, fragmentos do descarto que transformávamos em nossa civilização de faz de contas.
Trabalhando precocemente na feira e no bazar o jovem balconista desenhava seres fantásticos em papel de embrulho.

Na atitude audaz de dialogar com as pessoas do lugar, da escola, gentes do centro da cidade que compravam meus produtos em meio a um discurso decorado: “chocolate 3 é 1 real, sorvete da mama cremoso aceito passe”, sonhando em ser artista o pequeno trabalhador por de baixo da catraca conhece a cidade e sai do isolamento, cursa desenho, artes gráficas e a tal artes plásticas, descobre as instituições de cultura e a arte jovem nos muros e paredes.
Pintava telas, faixas e letreiro num primeiro contato com a grande escala, propagava tudo e a mim mesmo assinando o meu próprio nome.
Alcançada a tão sonhada faculdade que ensinou o a distancia da sabedoria e a tornar o olhar para a margem e dentro de um tema proposto retratei o meu contexto, um marco a primeira obra, intitulada O Jardim das Delícias que desencadeou o artista e a inspiração.
Daí os muros se tornaram paginas cinzas a folhear e colorir, os amigos marginais, expressão do entusiasmo múltiplo, neles me reconheci e percorrendo distancias cada vez mais longas torno hoje a origem, intrigado, buscando o inalcançável desenhando o indizível, conservando e transformando o lugar com o que a sociedade descarta.
Nós agentes somos a gente de lá, as crianças nelas nos vemos, semeamos a coletiva possibilidade do querer.