14 de dezembro de 2007

VENDE-SE por Tim


Essa história ela começa nas margens da represa Billings,
Estava eu um dia, com meu livrinho,
Lendo às margens da represa quando eu falei comigo mesmo
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- Vou pintar em outro lugar! Preciso pinta - Aquele livro me inspirava muito.
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Então eu e minha bicicletinha
Saímos daquele local de margem, com direção à outra margem. Cheguei na represa Guarapiranga,
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Chegando ali próximo dessa represa existe uma fábrica abandonada que e há muito tempo, e eu não percebi isso de agora, existe um movimento muito grande de, existem umas prostitutas, alguns travestis que fazem o comercio do seu corpo ali naquele local.
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Então eu curioso com tudo isso, com essa pessoa, aquelas pessoas estranhas diferentes, eu vou lá curiá o que tá acontecendo. Até eu chega próximo, fui percebendo que aquele dia estava mais tranqüilo, tinha menos pessoas ali...
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Então eu olhei pra um terreno ali na frente e vi que aquele terreno me chamava a atenção por algum motivo
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Era... sujo, era feio..., ele era... isolado.
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Então isso me chamou atenção a entrar e conhecer esse espaço.
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Assim que eu piso nesse espaço, eu percebi que ele... funcionava como um... era um terreno que fica em frente a essa fábrica e ele funcionava como uma espécie de motelzinho dessa galera ai e o chão era forrado de camisinhas e outras coisas estranhas que eu não prestei muita atenção, mas camisinha tinha muitas. E algumas camas meio que forradas também. Encantado com aquele lugar.
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- Nossa. Que pico louco. Meu deus do céu.
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Eu com meu materialzinho disse - vou pintar aqui
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Ai, comecei a pintar, fui bem pro fundo do terreno, no lugar mais feio que tinha e comecei a pintar... Então fiquei ali por alguns trinta minutos
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Quando de repente, entra uma das pessoas que ocupava aquele espaço, com seu companheiro, um taxista. Eles entraram na sala. Era um traveco bem grandão, bem forte e ai, logo que ele me viu naquele espaço:
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- Ah! Eles tão pintando a minha sala! E tá ficando bonito, a que lindo!
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E eu fiquei assustado com tudo aquilo o cara era grande, alias eram dois caras e eu fiquei calado meu
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O que que eu faço? Continuo a pintar?
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Ai ele já veio na minha direção e todo encantado: Nossa tá pintando! Ele tava chegando mais próximo de mim e o cara que tava atrás dele, o taxista virou de costas e já saiu voado quando me viu e ela num percebeu isso tudo.
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Ele veio na minha direção, fazendo esse comentários e esqueceu que o rapazinho que tava acompanhando ele, tinha virado as costas assim que ele levantou a cabeça e me viu, deu meia volta, automático
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Quando ela percebeu que ele tinha ido embora mudou o discurso dela de encantamento e começou a ficar meio nervosa:
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- Pô meu você estragou meu programa, cara, é tão difícil encontrar uma pessoa aqui
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Aí pô, ela ficou fudida comigo, e eu morrendo de medo, mas ai depois ela chegou numa boa e falou “foda, né, perdeu o cliente é foda” mas ele ficou batendo um papo e eu pedindo desculpa pra ela e ai fui conversando com ela sobre aquilo, num mini papo rápido até ela decidir que tinha que trabalhar
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E assim que ela saiu dali a polícia encostou e já levou ela, enquadrou e eu fiquei naquele mesmo momento caladinho.
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Enfim,
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Sai de lá e fui pra margem da represa refletir e pensar sobre toda aquela situação e decidi que precisava contar, tava muito com vontade de contar aquela história pra diversas pessoas. Porque achava aquela história muito louca. Falei pô tenho que registrar aquilo. Eu tô sozinho nesse momento aqui eu vou pintar né. Passar para o máximo de pessoas, através do grafite que é o que eu faço
...
Então fui ali próximo em uma região que tem muitas casas bonitas, as pessoas que tem uma grana... e era um momento que eu tava desempregado, é verdade, eu num falei isso, eu tava desempregado naquele momento ali, por isso que eu tava ali pintando, eu ultimamente tava fazendo muito isso, era as margens, era pintar, passear e ver pessoas e falar com elas todas – tava numa fase de descobrimento – então eu fui quere compartilhar aquilo, mas com o pensamento também de pô, preciso descolar uma grana, não com a expectativa de que eu ia conseguir uma grana naquele momento, de desabafar todo aquele momento que eu vivia na minha vida.
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Escolhi uma casa, a casa mais bonita que tinha em Interlagos, nem sei nome daquele bairro, mas ali próximo a Robert Kennedy, um bairro onde tem muitos casarões e escolhi um muro que tinha várias placas de vende-se e vende muito terreno naquele lugar, terrenos grandes, terrenos pra quem tem dinheiro
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Eu lembrei que naquele momento a coisa que eu carregava mais forte ali, era a arte, era poder pintar, fazer grafite e se eu conseguisse dinheiro com isso, maravilha né. Assim como aquele garoto, aquela garota, que tava comigo naquela salinha ali, ele tinha o corpo dele pra poder vender, vender é uma frase bem estranha, mas de alguma forma conseguindo grana, sobreviver, era o que dava o sustento dele. Lembrei daquilo de vender o corpo era estranho e vender a arte também era estranho e essa confusão de pensamentos
...
E o livro que eu tava lendo...
chamado O Processo do Franz Kafka e ao mesmo tempo tinha lido outro que era Metamorfose e tinha algumas cenas daquele livro que era muito bizarra, era uma coisa de transformar, era meio doido, assim como era doido também, a situação e ai eu fiz uma mistura daquilo tudo que eu tava passando
...
* Wellington Neri, conhecido como Tim, tem 23 anos.

Um comentário:

ci' disse...

oi tim! sou cinzia, da italia, lembra de mim.. gostei da història, parabens. espero de falar de novo contigo um dia. abraço